terça-feira, 16 de novembro de 2010

II.

Os longos e finos dedos mergulham no lago brincando com as letras. Apesar de ser considerada moça, ainda é uma criança. Ela forma palavras, frases e deixa que escorram sob as outras letras mais claras e azuladas que se assemelham à água, até que desapareçam da sua vista. Mas os dedos não pingam ao sair dali. Ri só, abobalhada olhando para aquele rio escrito.
Crack - um galho.
Alguém se aproxima.
É um homem. Ela não o conhece, não conhece o lugar, nem sabe ao certo o que é lá. Ele a viu? Pavor. Seus pés querem correr, mas ela sabe que fará barulho. E então? Ela transpira medo, dispara o sangue em suas veias.



Se arrasta o mais rápido que pode até a outra ponta da casa e então se abaixa novamente, para que não transpareça sua imagem pelas janelas do casarão.
Seus olhos se deixam levar por uma fresta: uma criança sentada numa banqueta em frente a um piano. Ao seu lado, uma senhora em pé acaricia aqueles cabelos louros ondulados. Ela se junta à pequenina e se deixam levar por um som. Mas não é simplesmente a melodia que sai de tantas teclas e cordas; a música tem efeito análgico para as dores e preocupações, para todo o mundo que a garota do outro lado do vidro havia deixado para trás.
Mas ela para. A música sendo tocada...É a música dela. Dela sim, não por tê-la composto, mas como um presente ganho. É a música dela, e ninguém mais a não ser quem a presenteou tocaria. Era um segredo. Embora as notas consigam aquecer seu interior por um minuto, seu corpo é tomado pela raiva.
Saudade.
Sai correndo.
Pisando em todas as flores que havia evitado.
Uma orquestra ribombante violenta seus ouvidos.
Ela corre.
Sem se importar em ser vista,
em fazer algum barulho,
em se machucar ou estar em perigo,
nada.
Nada mais importa.
Olivia corre o quanto pode. Corre até que o vento rasgue seu peito, até que seus pulmões gritem por socorro enquanto seus pés, antes tão delicados, sangram com os cortes dos galhos e espinhos.
A linha do horizonte está logo alí, na sua frente. "Tão perto, e ao mesmo tempo tão distante daqui..." - ela pensa. Agora já está trilhando muito adiante do caminho que tomaria para encontrar o rumo daquela linha iriada sem fim, não há volta...
O som vai se afastando.
Sente algo úmido rolando pelo seu rosto. Molhando como a água que molharia o moinho.
E dói tanto, tanto...mas ninguém entende... Por que tantas gotinhas causam tal dor? Dor maior do que o peito rasgado e incapacitado de reter ar, maior do que o medo de estar ali, maior do que o medo de voltar ao mundo ao qual pertence, maior do que a agonia de mil talhos ou chibatadas na epiderme. Maior do que o cansaço.
Seus joelhos roçam na grama. Seus dedos tocam os cabelos desgrenhados pela corrida e descem até os olhos.
Ela grita. Chora.
E ninguém vai ouví-la.
Ninguém vai acudí-la.
É só uma menina ajoelhada na grama com lágrimas escorrendo sob o sol;
e uma música que parece vir de longe, embora esteja pertinho, lá dentro...
Mas não dentro da mente,
dentro do coração.
Uma orquestra incessável.

domingo, 31 de outubro de 2010

I.

Ouve esse barulho? Preste atenção.
...
São pés descalços. Eles pisam numa grama úmida, com cuidado, guiando um olhar curioso e estranho àquele cenário.
Consegue sentir o cheiro do orvalho pairando nesta manhã?
Parece uma espécie de bosque, mas ela não tem certeza. A sensação é de já ter estado lá, porém é tão singular e ao mesmo tempo singelo...
Os dedos tocam pequenas flores por vezes e seguem desviando; a garota não quer arruinar aquele ambiente tão sereno. Os passos se tornam mais ávidos, chegando a tal distância que se vê um casebre.
"Um casebre?", ela pensa. Errado. É uma casa de campo de certo refino, certifica-se ao se aproximar, mesmo sendo rústica. Há uma chaminé e uma bonita varanda com mesas cercadas por imensa variedade de plantas. Alguém deve morar lá.
Seu coração palpita cada vez mais, alertando-a. O medo diz ser um terreno desconhecido, sem saber o que esperar. Mas seus olhos a incentivam, a imagem a seduz. "Que mal há em descobrir o novo, menina? Lugar tão sereno e pacífico, dores não lhe trará."
A distância entre a jovem e a construção já é pequena, está em um ponto cego de qualquer visão de dentro do casarão ou da varanda. Seu olhar espia o outro lado e vê um moinho. Fica incrédula ao ver de longe. O medo se perde na rapidez de seus passos e o queixo é deixado cair.
O moinho não era d'água, tampouco de vento. Era um moinho de letras.
Eram moídas, retorcidas, separadas para que pudessem formar novas palavras e expressões. Às vezes podia se ver alguma frase pela corrente fluvial.
Tão maravilhoso e macabro ao mesmo tempo, pensava ela. Tão incomum à sua realidade!
Mas que será realidade?
Real não é aquilo que existe, que é provado? Ela via aquilo, tinha certeza, assim como tinha certeza do que vira antes no seu mudo usual. Guerra, fome, interesses superficiais, desgraças.
A verdade é que é essa a forma que se diferencia o real do utópico. Não existe válvula de escape do cenário fatídico que nomeamos "real".