quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Desabafo

É quarta-feira e preciso de um abraço
Vem me ver
E me traz um maço
Daquele cigarro de palha
Que me traga a alma

É quarta-feira, e eu desabafo
Você trabalha, estuda, corre
Enquanto eu leio e grafo
Um tantão de palavras
Para prender na ponte
que me livra do passado
Que nos leva e liga
até o outro lado

O lado calmo
Sem sinal de turbulência
Onde você me espera com ciência

De que é só uma fase

O lado calmo
Com alguma clemência
Onde você me chama, me abraça
E faz com que tudo passe.

Cazuza me ouça o quanto queira
Pra repreender essa feira longe de areia de praia
Mas me ouça, sem besteira
Não vale a vida
Esperando um ponteiro
Apontar o que se esvaia .

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Uma carta para seus olhos / Sobre jardins suspensos

Escrevo essa carta para os seus olhos,
muito embora eu tenha a certeza
de que ela flutuará para sempre nos seus jardins suspensos.
Pairando despercebida.

Me perdoe,
é meu velho vício de insistir no esgotado
simplesmente porque o coração diz que sim.
Vício de ouvir o sentimento quando é hora de ouvir a consciência
e vice-versa.

Seu silêncio adere a todas as paredes da minha mente
E dele tudo o que eu depreendo é solidão.
Eu queria que você pudesse me ouvir mais uma vez, em vez de escutar a mágoa.
Gostaria que você enxergasse que
Minha lógica procura por algum sinal de erro. Reconheço, o primeiro não foi entregar ao dono desse olhar um amor ainda desconhecido aos meus vinte e poucos anos. Foi a hesitação a ele.
Ainda que você insista em acreditar que não, o coração já pulsava a seu favor, mesmo quando do meu erro de ter hesitado à paixão.
O maior deles, como sempre, foi primar pela "lógica".

Mas, pobre de consciência, só pude descobrir agora que
Como eu queria morar mais uma vez na sua natureza,
por entre um olhar que não furta, mas dá cor,
Como queria que essa doçura que preenche seus vasos [como seiva]
degustasse meus dias, minhas xícaras de chá
e tragasse as amarguras que carregam minh'alma.

sábado, 4 de janeiro de 2014

Dissecação do sertão I



Escuro...Escuro; escuta:
Goteja
toda abrupta
pulsando ininterrupta
vida em cristal de gruta

Pinga, pinga, insulta
escorrem severinos,
mineiros e atinos
a quem se prega multa:

Lavrar até a morte
sina de nunca sorte
a dessecar sertões.

E vexa Lampiões
quem pensa o coronel
só fazer tempo passado
declarado bordel.

Finitude circular

Somos infinitos à medida que perpetuamos nossos passos na história - individual ou coletivamente. Infinitos enquanto imaginamos que escafandristas de qualquer espécie um dia serão capazes de encontrar vestígios de quem - por dominar a técnica de violentar a própria natureza - auto-destruiu-se. Infinitos enquanto temos a dádiva mental de elaborar hipóteses de fuga ou retardo do nosso fim.
Portanto, pessoalmente infinitos - dado que o tamanho de cada infinito é absolutamente particular. E é poder de cada indivíduo optar pelo que lhe cabe. Ou ainda, pelo que cabe em si.
Cada qual tem o direito - e a possibilidade, por mais ínfima que seja - da escolha da extensão de seu infinito. É esta que determina a grandeza de sua finitude.
Aqueles cujas escolhas trouxeram os maiores - e/ou melhores - infinitos são os que fizeram da sua finitude o máximo aproveitamento de suas chances. São os que não se deixaram lograr por um potencial biótico ideal e tampouco pela mediocridade d’um crescimento real.
(Pois que “real” nada mais é do que um limite incutido em cada mente!)
Deste modo, vivemos num movimento confuso porém não definitivamente paradoxal: aquele em que o máximo aproveitamento das finitudes leva a seu esgotamento. Assim, paulatinamente, conduzindo-nos a nosso infinito particular.

terça-feira, 24 de julho de 2012

A gota.

Olhos de ressaca,
a maré nunca baixa.

Ingenuidade, tolice infinda da meninice crer nos teus azuis
Agraciada maresia que preencheu os olores de ontem,
hoje cheira a heresia. Será a única que resta, afinal?

Não me venhas com a "mea culpa",
é estratégia a cor do olhar, mais uma vez, armadilha.
A impressão mental da praia tornou-se aquário turvo,
somente o seu, coberto com negro tecido
hermético.

O egoísmo de ondas consumindo o que encontra seu alcance
me mostrou um redemoinho de mar, perverso,
tão mudado, como pode?
Ou tão falso, como vive?
Me explica, por favor.
Me conta do seu pavor, me mostra sua dor
Pois sem isso, parece tudo vago.
Mar sem areia.
Água. Somente água,
Indelével,
que banha, que sufoca,
que leva, que devora
os astros,
a pele dos amantes.
Que trai com líquida beleza e naturalidade
o sentido humano.
Água sem personalidade,
água de aparências.

Vê,
talvez seja só mais uma insanidade
de um sentimento enfermo...
Talvez já estivesse lá - estão lá as suas cores
desde o início, seu aspecto enigmático.

Talvez.
Tenha sido só cansaço, viagem mental
raptando o nexo de uma miragem infernal
numa tarde qualquer.
Com as ondas tocando os pés,
carregando-os para longe.
Só cansaço.

domingo, 1 de julho de 2012

Ouvi dizer...

Andam pelas ruas,
sorrateiros, uns rumores
de que um bicho com dotes
está a viver neste mundo rudimentar
mas não se engane,
ele é sagaz, não veio rastejar.

Ouvi dizer
que
se intitulam racionais,
que têm ideais, plenitude de materiais
os quais não são capazes de racionar.
Pensam conhecer a natureza,
e dos demais tem a certeza
de que podem dominar
sobre um palco, um palanque,
despindo o seu semelhante,
açoita o negro, violenta a política,
a moral,
mas é tudo constitucional,
e nisso, então, que mal há?
Seja humano, mundano, puritano,
fulano, sicrano ou beltrano,
que se dane se é grego ou italiano!
o importante é lucrar.
São só números, dados estatísticos,
experimentos desenvolvendo
a falaciosa clemência
acoplada à inteligência:
corrida armamentista, bomba atômica,
sinonímias para desenvolvimento cefálico
da sociedade atônita
que pretende ao mundo mostrar
sua incessante necessidade auto-afirmativa
de carência, destrutiva,
implantada na espécie, pobre espécie,
que já esqueceu o que é "comunicar".
Laconismo elementar!

Ouvi dizer
que um bicho
já descrito por Bandeira
- aquele, engolidor de restos de vidas corriqueiras -
esqueceu-se de que veio do mesmo lugar
que os detritos catados no pátio,
o lixo, o excremento, o asco;
e ainda é tão putrefato quanto
o cadáver na mesa de jantar
e aquele que você anda a velar.

Ouvi de um inseto chamado "consciência" que um bando destes bichos integra uma sociedade dita desenvolvida, incinerando a própria vida e rindo a gastar.
Ouvi ecos em crânios cujo conteúdo aderiu às páginas de revistas machistas e dietas surrealistas e se recusa a raciocinar.
Ouvi que macacos pagam a outros macacos para sentar em seu divã e ouvir Freud psicografar; e que estes votam, ainda que apolíticos, elegem tiranos paralíticos e os prestigiam conceituando democracia num regime militar.
E qual o significado, hoje, d
o verbete "pensar"?

terça-feira, 16 de novembro de 2010

II.

Os longos e finos dedos mergulham no lago brincando com as letras. Apesar de ser considerada moça, ainda é uma criança. Ela forma palavras, frases e deixa que escorram sob as outras letras mais claras e azuladas que se assemelham à água, até que desapareçam da sua vista. Mas os dedos não pingam ao sair dali. Ri só, abobalhada olhando para aquele rio escrito.
Crack - um galho.
Alguém se aproxima.
É um homem. Ela não o conhece, não conhece o lugar, nem sabe ao certo o que é lá. Ele a viu? Pavor. Seus pés querem correr, mas ela sabe que fará barulho. E então? Ela transpira medo, dispara o sangue em suas veias.



Se arrasta o mais rápido que pode até a outra ponta da casa e então se abaixa novamente, para que não transpareça sua imagem pelas janelas do casarão.
Seus olhos se deixam levar por uma fresta: uma criança sentada numa banqueta em frente a um piano. Ao seu lado, uma senhora em pé acaricia aqueles cabelos louros ondulados. Ela se junta à pequenina e se deixam levar por um som. Mas não é simplesmente a melodia que sai de tantas teclas e cordas; a música tem efeito análgico para as dores e preocupações, para todo o mundo que a garota do outro lado do vidro havia deixado para trás.
Mas ela para. A música sendo tocada...É a música dela. Dela sim, não por tê-la composto, mas como um presente ganho. É a música dela, e ninguém mais a não ser quem a presenteou tocaria. Era um segredo. Embora as notas consigam aquecer seu interior por um minuto, seu corpo é tomado pela raiva.
Saudade.
Sai correndo.
Pisando em todas as flores que havia evitado.
Uma orquestra ribombante violenta seus ouvidos.
Ela corre.
Sem se importar em ser vista,
em fazer algum barulho,
em se machucar ou estar em perigo,
nada.
Nada mais importa.
Olivia corre o quanto pode. Corre até que o vento rasgue seu peito, até que seus pulmões gritem por socorro enquanto seus pés, antes tão delicados, sangram com os cortes dos galhos e espinhos.
A linha do horizonte está logo alí, na sua frente. "Tão perto, e ao mesmo tempo tão distante daqui..." - ela pensa. Agora já está trilhando muito adiante do caminho que tomaria para encontrar o rumo daquela linha iriada sem fim, não há volta...
O som vai se afastando.
Sente algo úmido rolando pelo seu rosto. Molhando como a água que molharia o moinho.
E dói tanto, tanto...mas ninguém entende... Por que tantas gotinhas causam tal dor? Dor maior do que o peito rasgado e incapacitado de reter ar, maior do que o medo de estar ali, maior do que o medo de voltar ao mundo ao qual pertence, maior do que a agonia de mil talhos ou chibatadas na epiderme. Maior do que o cansaço.
Seus joelhos roçam na grama. Seus dedos tocam os cabelos desgrenhados pela corrida e descem até os olhos.
Ela grita. Chora.
E ninguém vai ouví-la.
Ninguém vai acudí-la.
É só uma menina ajoelhada na grama com lágrimas escorrendo sob o sol;
e uma música que parece vir de longe, embora esteja pertinho, lá dentro...
Mas não dentro da mente,
dentro do coração.
Uma orquestra incessável.