domingo, 1 de julho de 2012

Ouvi dizer...

Andam pelas ruas,
sorrateiros, uns rumores
de que um bicho com dotes
está a viver neste mundo rudimentar
mas não se engane,
ele é sagaz, não veio rastejar.

Ouvi dizer
que
se intitulam racionais,
que têm ideais, plenitude de materiais
os quais não são capazes de racionar.
Pensam conhecer a natureza,
e dos demais tem a certeza
de que podem dominar
sobre um palco, um palanque,
despindo o seu semelhante,
açoita o negro, violenta a política,
a moral,
mas é tudo constitucional,
e nisso, então, que mal há?
Seja humano, mundano, puritano,
fulano, sicrano ou beltrano,
que se dane se é grego ou italiano!
o importante é lucrar.
São só números, dados estatísticos,
experimentos desenvolvendo
a falaciosa clemência
acoplada à inteligência:
corrida armamentista, bomba atômica,
sinonímias para desenvolvimento cefálico
da sociedade atônita
que pretende ao mundo mostrar
sua incessante necessidade auto-afirmativa
de carência, destrutiva,
implantada na espécie, pobre espécie,
que já esqueceu o que é "comunicar".
Laconismo elementar!

Ouvi dizer
que um bicho
já descrito por Bandeira
- aquele, engolidor de restos de vidas corriqueiras -
esqueceu-se de que veio do mesmo lugar
que os detritos catados no pátio,
o lixo, o excremento, o asco;
e ainda é tão putrefato quanto
o cadáver na mesa de jantar
e aquele que você anda a velar.

Ouvi de um inseto chamado "consciência" que um bando destes bichos integra uma sociedade dita desenvolvida, incinerando a própria vida e rindo a gastar.
Ouvi ecos em crânios cujo conteúdo aderiu às páginas de revistas machistas e dietas surrealistas e se recusa a raciocinar.
Ouvi que macacos pagam a outros macacos para sentar em seu divã e ouvir Freud psicografar; e que estes votam, ainda que apolíticos, elegem tiranos paralíticos e os prestigiam conceituando democracia num regime militar.
E qual o significado, hoje, d
o verbete "pensar"?

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