domingo, 31 de outubro de 2010

I.

Ouve esse barulho? Preste atenção.
...
São pés descalços. Eles pisam numa grama úmida, com cuidado, guiando um olhar curioso e estranho àquele cenário.
Consegue sentir o cheiro do orvalho pairando nesta manhã?
Parece uma espécie de bosque, mas ela não tem certeza. A sensação é de já ter estado lá, porém é tão singular e ao mesmo tempo singelo...
Os dedos tocam pequenas flores por vezes e seguem desviando; a garota não quer arruinar aquele ambiente tão sereno. Os passos se tornam mais ávidos, chegando a tal distância que se vê um casebre.
"Um casebre?", ela pensa. Errado. É uma casa de campo de certo refino, certifica-se ao se aproximar, mesmo sendo rústica. Há uma chaminé e uma bonita varanda com mesas cercadas por imensa variedade de plantas. Alguém deve morar lá.
Seu coração palpita cada vez mais, alertando-a. O medo diz ser um terreno desconhecido, sem saber o que esperar. Mas seus olhos a incentivam, a imagem a seduz. "Que mal há em descobrir o novo, menina? Lugar tão sereno e pacífico, dores não lhe trará."
A distância entre a jovem e a construção já é pequena, está em um ponto cego de qualquer visão de dentro do casarão ou da varanda. Seu olhar espia o outro lado e vê um moinho. Fica incrédula ao ver de longe. O medo se perde na rapidez de seus passos e o queixo é deixado cair.
O moinho não era d'água, tampouco de vento. Era um moinho de letras.
Eram moídas, retorcidas, separadas para que pudessem formar novas palavras e expressões. Às vezes podia se ver alguma frase pela corrente fluvial.
Tão maravilhoso e macabro ao mesmo tempo, pensava ela. Tão incomum à sua realidade!
Mas que será realidade?
Real não é aquilo que existe, que é provado? Ela via aquilo, tinha certeza, assim como tinha certeza do que vira antes no seu mudo usual. Guerra, fome, interesses superficiais, desgraças.
A verdade é que é essa a forma que se diferencia o real do utópico. Não existe válvula de escape do cenário fatídico que nomeamos "real".

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